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Exterior avalia que foi correto adiar oferta de Petrobrás
"Adiamento não é uma preocupação e não muda nossa visão sobre o Brasil", afirmou Kevin Daly, gestor da Aberdeen Asset Managers
Luciana Xavier e Daniela Milanese, da Agência Estado
NOVA YORK E LONDRES -
A decisão da Petrobrás de adiar a oferta de ações para setembro foi acertada, na avaliação de analistas e investidores internacionais consultados pela Agência Estado. Em contraste com as críticas do mercado nacional, na perspectiva externa a postergação faz sentido, pelas dúvidas que cercavam a operação neste momento.
Os principais questionamentos dos estrangeiros são o preço dos barris em reservas do pré-sal que serão vendidos à empresa e os efeitos do vazamento de petróleo na plataforma da BP sobre os negócios em águas profundas. Além disso, o mega IPO do Agricultural Bank of China se apresenta agora como concorrência para a colocação da Petrobrás.
A estatal informou na noite de terça-feira que pretende esperar pela auditoria da Agência Nacional do Petróleo (ANP) para certificar os 5 bilhões de barris em reservas. Até então, sustentava que poderia tocar a capitalização independentemente da avaliação do órgão regulador, fazendo um acerto de contas depois. No entanto, surgiu o temor de contestação jurídica da operação.
O apoio dos investidores estrangeiros, como apurado pela Agência Estado, indica que o adiamento era uma demanda. A questão é saber como estarão as condições de mercado a partir de setembro, em meio à crise na Europa e pouco antes das eleições no Brasil.
"A Petrobrás agiu corretamente", disse a analista independente Annette Hester, do Canadá. "É melhor que a Petrobrás faça a oferta com maior claridade sobre o valor dos barris, portanto é razoável que tenham adiado", afirmou Urban Larson, gestor do fundo britânico F&C.
Ruaraidh Montgomery, analista para petróleo e gás da Wood Mackenzie, em Houston, no Texas, também avalia que a decisão da Petrobrás "faz sentido", pois a estatal faz bem em querer esperar pela auditoria da ANP.
"O adiamento não é uma preocupação e não muda nossa visão sobre o Brasil", afirmou Kevin Daly, gestor da Aberdeen Asset Managers, em Londres.
Acidente da BP
Segundo Annette Hester, o acidente da BP no Golfo do México - cuja explosão deixou 11 mortos e deu início a um vazamento de petróleo no oceano que já dura mais de dois meses - poderia reduzir o apetite dos investidores pelas ações.
"A percepção de risco está muito alta e ficará alta enquanto durar o vazamento", completou Hester, que é associada do Center for Strategic and International Studies (CSIS), em Washington. De acordo com ela, a regulação nos EUA também pode ficar muito mais severa por causa do acidente e isso tem deixando o investidor cauteloso.
A especialista disse que o adiamento dará a Petrobrás tempo para montar uma estratégia para atrair os investidores, mostrando a solidez da regulação e do sistema de segurança para exploração em águas profundas no Brasil. "O investidor está olhando para saber quão forte é a regulação do Brasil", afirmou. "O fato de a Petrobrás dizer que vai esperar pela avaliação da ANP mostra respeito a um órgão regulador e reforça a ideia de que a estatal não funciona sozinha no Brasil."
Hester avalia que o governo deverá se empenhar em mostrar o diferencial do pré-sal "dentro do universo de águas profundas". Segundo ela, será importante deixar claro como funciona o gerenciamento e auditoria da Petrobrás. "O sistema de gerenciamento da Petrobrás não é conhecido. Há falta de informação, pois ninguém estava preocupado com o assunto", explicou.
O analista Rodrigo Correa da Costa, da Newedge, em Nova York, também avalia que o adiamento pode ser benéfico para a Petrobrás. "A Petrobrás ganha tempo para que a situação da BP seja resolvida, pois existe um desconforto generalizado em relação à BP. E será importante mostrar quão capacitado está o Brasil para agir na contenção (em caso de acidente). Ou seja, o Brasil pode ganhar tempo para se mostrar mais forte."
Concorrência
O IPO do Agricultural Bank of China, estimado em US$ 22 bilhões, também é um impeditivo para a Petrobrás neste momento, afirmou Wilber Colmerauer, sócio da consultoria Brazil Funding, em Londres. Foram divulgados hoje ao mercado detalhes da operação - o road show começou ontem, dia 24, o preço sai no dia 6 de julho e a estreia na bolsa de Hong Kong acontece em 16 de julho.
A operação chinesa impede, inclusive, que investidores com alocação muito grande vendam as ações por alguns meses, com prazos que podem chegar até a um ano e meio, para impedir oscilações muito fortes após o IPO.
Para Colmerauer, a Petrobrás se deparou com um problema técnico sobre a auditoria da ANP, mas as condições de mercado neste momento também estão pesando. "Juntou a fome com a vontade de comer."
A pergunta que surge é como estará a situação dos mercados em setembro. "Não me surpreenderá se a oferta da Petrobrás só sair no final do ano, depois das eleições", disse Colmerauer.
Para Costa, da Newedge em Nova York, caso a situação na Europa piore, o apetite do investidor pode estar comprometido quando as ações forem ofertadas em setembro. "A Petrobrás pode não encontrar uma janela (de oportunidade) tão melhor por causa da Europa."